Formação, adubação e manejo de pastagens visando altas produtividades

“Formação, adubação e manejo de pastagens visando altas produtividades”
Carlos Alberto Ohara

            Assim como em qualquer outra cultura agrícola podemos medir a produtividade do gado de corte para balizar como está o negócio. O índice @s/ha/ano é utilizado para gerar um número que contempla quanto de carne (arrobas = @) produzimos em cada unidade de área (hectare = 10.000 m2) num ano de trabalho. Assim podemos comparar o gado de corte com outras culturas que medem em sacas de grãos/ha, toneladas de cana/ha, etc, gerando um faturamento bruto. Exemplos:

  • 4 @s/ha/ano considerando a @ no mercado a R$140 = R$560,00/ha/ano (este é um número normal em gado de corte).
  • 27@s/ha/ano = R$ 3.780/ha/ano (possível de obter conforme um exemplo utilizado neste trabalho, evidenciando a chance de produzirmos 6 vezes mais se adotadas um conjunto de tecnologias.
  • 60 sacas de soja/ha/ano = R$ 3.600/ha/ano
  • 150 sacas de milho/ha/ano = R$3.750/ha/ano
  • 90 toneladas de cana/ha/ano = R$5.400/ha/ano e assim por diante. Assim temos um número para balizar o faturamento bruto e de acordo com a eficiência de custos em cada situação será possível ter um lucro maior. O que não é possível é termos um lucro maior com um faturamento muito limitado ou reduzido.

            O presente trabalho visa posicionar o conjunto de fazendas que vem sendo acompanhadas pela ViaVerde, mostrando a realidade nua e crua de boas fazendas que recebem orientação técnica e contar um pouco de algumas realidades e focos de atuação ligados à formação, manejo e adubação de pastagens e seus impactos.
A ViaVerde consultoria assessora com isenção comercial 140 propriedades de gado de corte com um time de 10 consultores conforme a tabela listada abaixo. Nota-se uma distribuição heterogênea de clientes em localização, tamanho de propriedade e de rebanho, diferenças no nível tecnológico (lotação de pastagens), etc, evidenciando as características do trabalho de consultoria e fomento dedicado à realidade de cada situação encontrada, mostrando que toda propriedade é possível de ser assistida tecnicamente. São quase 87 mil cabeças de gado de corte com propriedades de 543 ha de pastagens em média sendo assim distribuídas:

  • 20% fazem cria e mais 14% fazem cria e recria resultando em 34% das fazendas que se dedicam à fase inicial de produção de animais.
  • 2% só recriam e 25% recriam e engordam resultando em 27% das fazendas que fazem a terminação de animais, caracterizado por fazendas que necessitam de solos e pastagens melhores
  • 40% fazem ciclo completo (cria – recria – engorda).

É possível notar uma certa distribuição equivalente entre os diversos sistemas de produção assistidos pela ViaVerde (34 x 27 x40).      

  

Acima ilustramos o posicionamento geográfico das 140 fazendas de gado de corte assistidas pela ViaVerde e abaixo o descritivo das mesmas:



Nota-se que a lotação média é baixa (1,14 cab/ha), semelhante à média nacional que pode ser obtida pelos dados oficiais do governo brasileiro, porém é possível detectar que 10% delas já conseguem trabalhar com lotações acima de 2 cabeças/ha considerando toda a área útil da propriedade. Se algumas fazendas conseguem dobrar a quantidade de gado na fazenda por que outras não o fazem? Esta pergunta possui inúmeras respostas e destacamos algumas:
1. o produtor de gado de corte tradicionalmente sempre trabalhou em sistemas extrativos, sempre buscando novas áreas para abrir visando formar novos pastos em terras com fertilidade original, queimando durante anos a matéria orgânica presente. Dependendo da região esta operação dura muitos anos quando o solo é fértil;
2. dobrar o gado na fazenda necessita investimentos em maquinários, corretivos, fertilizantes, cercas, bebedouros, saleiros e mais animais. Via de regra o pecuarista não está aberto a investimentos, a não ser reformar ou formar mais pasto;
3. falta de boa orientação técnica é uma das causas para a falta de maior evolução. O produtor não sabe por onde começar. Geralmente começa errado investindo no pior pasto, colocando seu valioso capital onde o retorno será menor e menos eficiente, gerando menos capacidade de reinvestir na sua propriedade pois o dinheiro custa a voltar;
4. visão de reserva de patrimônio onde o que importa é lucrar mais se não for dar mais trabalho e nem ter que investir muito mais. Situação cômoda para quem não depende da fazenda e tem a mesma visando apenas valorização imobiliária;
5. outras razões.
Ciente destas situações acima, o árduo trabalho de otimizar fazendas de gado de corte passa por alguns princípios como seguem abaixo:
Um primeiro princípio que precisa ser esclarecido dentro do tema em questão é o esforço de trabalhar as pastagens visando a preservação ambiental e o cumprimento das leis, tema muito importante para os dias atuais. Formar bons pastos, manejá-los adequadamente e adubar de forma equilibrada gera possibilidade do pecuarista cercar suas áreas de preservação permanente (APPs) mantendo igual rebanho em sua propriedade, ou até aumentar o mesmo. É o que aconteceu na fazenda São José que adotou medidas conservacionistas em Santo Antonio da Alegria (SP) cercando 35% das áreas correspondentes à preservação permanente (APPs) e reservas legais (RL) e ainda aumentou seu rebanho de 600 para 800 cabeças em cerca de 400 ha de pastagens em região de solo arenoso. A foto abaixo ilustra a fazenda com muitas áreas de mananciais de água que precisavam ser preservados por lei e só foi possível cerca-las após um criterioso trabalho de correção, fertilização e manejo das pastagens.               

                         

As áreas pintadas em verde são APPs que antes tinham acesso total do gado.

            O segundo princípio trabalhado é a recuperação de pastagens e manutenção de boas lotações sem haver necessidade de reformas. Pasto é uma cultura perene, não precisa ser reformada. Gradear pasto somente se quiser mudar a planta forrageira. Fazer o pecuarista corrigir solos e adubar pastos não é tarefa fácil haja visto a falta de tradição, a falta de maquinário e o volume de investimento necessário. Mas essa realidade vem mudando tanto nas fazendas dedicadas apenas à pecuária assim como em outras com ajuda da integração lavoura pecuária (ILP) e suas derivações (Integração Lavoura Pecuária e Floresta – ILPF).
Um terceiro princípio é a boa formação de pastos para alta produtividades. Ressaltamos que passamos a contar com sementes de pastagens com até 90% de Valor Cultural (VC), muito puras e limpas permitindo economia nos plantios em linha, com a semente enterrada idealmente a 1 ou 2 cm profundidade, garantindo uma boa germinação. Já é realidade utilizar 3 a 5 kg/ha destas sementes gastando-se a metade do valor de outrora. Num plantio de 100 ha é possível economizar R$9.000,00 apenas em semente (4 kg/ha multiplicados por R$15,00/kg contra 15 kg/ha x R$ 10,00/kg). O plantio em linha também vem ajudar na conservação do solo e da água, pois permite semeaduras em plantio direto ou cultivo mínimo que geram mais uma economia em preparo de solo e evitam gradagens  desnecessárias.


            Um quarto princípio é que pastagens produtivas são culturas agrícolas e necessitam de correção e adubação bem como um bom manejo de pastejo que proporcione o melhor aproveitamento possível do capim. A fim de exemplificar indicadores seguem dados finais de duas fazendas que controlam seus custos e adubam cerca de 5% das pastagens totais:


Ambas as fazendas fazem pastejo rotacionado bem manejado das áreas adubadas e fazem rotação das demais glebas, correções de solo com calcário e outros nutrientes sempre que há sobra de caixa. Nota-se que alguns valores convergem como lucro operacional/ha, custos mensais por cabeça, lotação, @s produzidas/ha levando-se à conclusão que estão em patamares semelhantes de tecnologia: 1,7 cab/ha.
Um bom exemplo de manejo mais intensivo vem de uma propriedade pequena de 153 ha em Comendador Gomes, MG, no triângulo mineiro, com três pastejos rotacionados e algumas áreas chamadas de “pulmão” para flexibilidade do manejo em tempos menos favoráveis. Nesta propriedade chegou-se a produzir 27@/ha/ano. Se valorarmos a @ do boi a R$140 temos R$3.780,00 de receita bruta por hectare fazendo a pecuária ficar mais perto em receita bruta de outras culturas como o milho e a soja.
Na ilustração abaixo é possível ver um rotacionado mais à esquerda da foto numa região de furna caracterizado por inúmeras grotas que foram utilizadas para dividir os piquetes e servem de bebedouros. Mais ao meio da foto e abaixo à direta mais dois rotacionados com praças de alimentação onde existem bebedouros e saleiros comuns com acesso a inúmeros piquetes que variam de 2,5 a 6 ha e permitem o manejo dos lotes de gado e das pastagens.



                        Nesta fazenda os animais engordaram 7,5@s/ano obtido pelas boas pastagens adubadas com esterco de galinha comprados e aplicados uma vez ao ano na dosagem de 4 toneladas/ha/aplicação. Técnicas de suplementação com sais proteico-energéticos foram aplicadas onde os animais no verão consumiam cerca 0,3% do peso vivo (1.200 gramas de sal proteico-energético/cabeça de 400 kg de peso vivo) gerando ganhos de peso na casa de 900 gramas/cab/dia na época das águas resultando em 5 a 6@s de ganho de peso. Na seca, dependendo da estratégia de mercado a suplementação aumentava para manter o ganho de peso, já que as pastagens pioram sua qualidade por falta de água e frio, visando o abate dos animais em cerca de 9 meses de estadia na fazenda. Com isto foi possível abater em média 550 cabeças por ano (média de 4 anos).



Boiada com bom acabamento nos piquetes rotacionados

                        Se multiplicarmos 7,5@s de ganho de peso por animal em cerca de 9 meses vezes as 550 cabeças abatidas por ano e dividirmos pela área da fazenda (153 ha) chegamos em 27 @s/ha/ano. Trata-se de uma produtividade muito acimas das outras duas fazendas que foram apresentadas (5,07 e 5,9 @s/ha/ano), mas que norteiam as possibilidades de produtividades a serem perseguidas pelo pecuarista moderno, produtivo e rentável.
O lucro obtido nesta fazenda foi de R$ 1.120,00 /ha/ano resultado da seguinte conta:
7,2 @s/ha/ano de custeio geral (R$ 28 de custo/cab/mês x 3 cab/ha dividido por R$ 140/@)
4 @s/ha/ano com fertilizantes de solo
7,8 @s/ha/ano com suplementos: 3 cab/ha x ~0,3%PV em média
Total: 19 @s de custo
Receita: 27@s/ha/ano
Lucro: 8 @s/ha/ano = R$ 1.120,00/ha/ano

                        O custeio geral é composto por todos os itens gastos na fazenda durante o ano dividido pelas cabeças existentes e novamente dividido por 12 meses. As 4@s citadas acima como gastos com fertilizantes refere-se ao esterco jogado na dosagem de 4 ton/ha/ano.


Considerações finais
Boas pastagens são a base para uma pecuária rentável, produtiva e que colabora para preservação do meio ambiente. Adubar estrategicamente os pastos já é uma realidade que o pecuarista deverá incorporar à sua realidade para permanecer na atividade gerando riquezas e ofertando muita proteína animal para o mundo.
Ainda há muito por fazer conforme o que foi apresentado, porém já existem muitos casos de boas produtividades sinalizando a modernização da pecuária e os rumos que a mesma deve seguir no médio prazo.
As melhores produtividades com gado de corte são obtidas quando aumentamos o número de cabeças por hectare e associamos técnicas de aumento no ganho de peso. Para que essas duas coisas aconteçam é fundamental termos boas pastagens e bons animais. 

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